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Vidas soterradas: as histórias das vítimas das chuvas em Pernambuco

Doze pessoas morreram em Abreu e Lima, Recife e Olinda por conta de deslizamentos de barreiras em mais uma madrugada trágica

Com medo dos deslizamentos, Natalício Vicente da Silva, de 69 anos, e Ivonete Maria da Silva, 63, tinham se mudado havia quatro anos para uma casa em Passarinho, na Zona Norte do Recife. O imóvel foi construído graças a um mutirão organizado pela própria família justamente por ser um lugar considerado mais seguro para eles. Na trágica madrugada chuvosa desta quarta-feira (24), eles dormiam quando a barreira desabou. Os corpos do casal foram encontrados lado a lado, em cima da cama.

A história dos idosos se soma a uma lista de outras dez mortes contabilizadas após o temporal da quarta-feira (24) na Região Metropolitana do Recife. Desde o dia 13 de junho, quando outros deslizamentos mataram nove pessoas na RMR, já são 21 vítimas das chuvas em Pernambuco. Todas guardam um ponto em comum: são famílias pobres que se deslocaram para áreas de risco por falta de opção. 

Gestante soterrada estava na casa dos pais para fazer chá de fraldas
Grávida de oito meses, Maria Eduarda de Silva, de 21 anos, viajou até Caetés II, em Abreu e Lima, para celebrar a vida do bebê Brendon, que chegaria em agosto. Ela deixou a Ilha de Itamaracá, onde morava com o marido, para fazer um chá de fraldas com a família e acompanhar a festa de aniversário de 15 anos do irmão.

Duda, como era carinhosamente chamada pelos parentes próximos, foi a última retirada do mar de lama em que se transformou a área onde estavam quatro casas. As buscas entraram pela noite e o corpo só foi achado pelo Corpo de Bombeiros por volta de 23h40, quase 24 horas após o deslizamento. Os irmãos dela, Luis Henrique da Silva, de 15 anos, Mariana da Silva, de 18 anos, e o pai, Silvano da Silva, de 49, também morreram soterrados pela avalanche.

Mulher morta em deslizamento tentou tranquilizar o filho horas antes
Em Olinda, os vizinhos Elisângela Alves da Silva, de 43 anos, e Diego Luiz de Oliveira , de 33 anos, também não resistiram a um deslizamento no bairro de Caixa d’Água. Empolgada por ter recentemente voltado a estudar, Elisângela recebeu, horas antes da tragédia, a visita do filho caçula, de 16 anos, a quem tentou tranquilizar por conta do tempo ruim. Já o filho mais velho, de 25 anos, que dormia com ela no barraco, levou uma pancada na cabeça durante a queda da barreira, mas sobreviveu.

Diego, o vizinho discreto, morava sozinho. O único companheiro dele era um cachorro, que sobreviveu. O cão não quis deixar a área dos escombros e, talvez na esperança de reencontrar o dono, acompanhou de perto a operação de resgate do Corpo de Bombeiros, comovendo moradores e parentes da vítima. 

Amigo de vítima disse que sobreviveu por milagre

No bairro de Águas Compridas, também em Olinda, Abraão Batista da Silva, de 25 anos, estava no barraco de um amigo em uma área de difícil acesso quando foi atingido pela massa de lama. Éverton Dias da Silva, amigo de Abraão, também foi atingido e considerou “um milagre” ter sobrevivido, enquanto lamentar a perda precoce.

No mesmo bairro, foi registrada a morte de Iraci Maria da Conceição, de 77 anos. A idosa dormia com o marido quando a barreira caiu e arrastou as paredes do imóvel. Um vizinho ainda tentou ajudar a retirá-la dos escombros, mas ela foi encontrada sem vida. O casal morava na casa havia 12 anos e nesse período nunca havia sido registrado nenhum incidente no local por conta das chuvas.

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