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domingo, 11 de novembro de 2018

Reflexão pela ocasião da morte de um jovem

“Podemos dizer que é penoso, mas as palavras nem dão conta de tanta dor. A fragilidade do ser humano nem sequer estabelece distinção entre velhos e jovens.” (Trecho da Carta da Ossada Branca do Mestre Rennyo)


A morte por si só afeta a todos nós, independente de já termos ou não testemunhado uma experiência tão dolorosa, que é a perda de um ente querido. Mas a dor dessa perda nos afeta muito mais intensamente quando a morte nos leva embora de forma sorrateira, imprevisível e tão definitivamente uma pessoa jovem. Resta em nós um sentimento de prejuízo, de revolta, de que fomos iludidos. O falecimento de uma pessoa idosa, doente ou incômoda, apesar de tudo, nos consola pelo sentimento de alívio, para nós e para quem partiu, pelo sentimento de dever cumprido, de uma vida longa e plena. Mas quando a morte atinge uma pessoa jovem, que deixa projetos em andamento, filhos pequenos, pais vivos e tantas possibilidades, tanto potencial a ser desenvolvido, tanta vida a ser vivida… escancara-se a realidade de que basta estar vivo para morrer.

Resta-nos uma sensação de termos sido enganados, como se nestes casos, a Vida fosse um grande estelionato. Vêm-nos à mente frases prontas como: uma mãe jamais deveria morrer jovem, tanta gente ruim nesse mundo que merecia ser morto em lugar de morrer bons cidadãos, os pais jamais deveriam enterrar os filhos… Entendemos que o natural é jovens enterrando seus velhos, gente boa sendo premiada com vida longa e os maus sendo castigados com a morte inexorável. Isso tudo me faz lembrar de uma fala de algum ‘filmeco’ de madrugada insone, em que apenas uma frase valeu mais do que o contexto total do filme: “nada é como deveria ser”. A frase resume a impermanência da vida, o nosso apego e o consequente sofrimento, conceitos pregados pelo Buda. O “deveria ser” das frases acima, é resultado de conceitos e valores próprios de cada um, de nosso apego, e quando os fatos contradizem os ideais que “deveriam ser”, vem o sofrimento. Esquecemos da impermanência, única regra que é concomitantemente a sua própria exceção.

A morte inquestionavelmente é o mais democrático e não preconceituoso dos acontecimentos, é a única certeza que temos na vida, pois esta, certa neste exato momento, é uma incógnita no momento seguinte. Nas palavras do Mestre Rennyo: “nosso corpo, que pela manhã ostenta faces rosadas, ao entardecer pode estar transformado em uma ossada branca”.

Não se pode ter a pretensão de que os ensinamentos do Budismo podem melhor confortar e conformar àqueles que se deparam com uma morte “injusta”, posto que dor é sempre dor, mas que a partir dessas reflexões, talvez possamos nos limitar a chorar a dor da separação causada pela morte, desobrigando-nos de suportar a sensação de perda desnecessária e injusta, para que a morte de uma pessoa jovem nos faça refletir o quanto a vida é frágil, e que merece ser vivida em plenitude, seja longa ou curta, pois a vida individual está inserida num contexto muito maior, que é a Vida Imensurável. E que essa vida encerrada prematuramente, possa estar agora unida à Vida e Luz Infinitas, vivificando-nos até o dia em que a dor se transforme em lembrança, e que enfim, possamos nos reencontrar na Terra Pura do Buda Amida.

Só nos resta, em meio às lágrimas, juntar nossas mãos e recitar:

Namu Amida Butsu (
Namu Amida Butsu constitui o nenbutsu, ou recitação de fé e entrega ao voto de compaixão do Buddha Amida, que, ao atingir a iluminação, prometeu o acolhimento em seu Paraíso da Terra Pura, aos devotos. Essa entrega pela fé é denominada tariki pelo reconhecimento da incapacidade humana).



Reva. Sayuri Tyojun